segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O que eu fiz para me curar!


Sempre que ia ao hospital às consultas de hematologia tinha sempre uma “lista” de perguntas para fazer à minha médica. As dúvidas eram tantas que tinha de escrever tudo para não me esquecer (em 3 semanas “varria-se-me” tudo do meu cérebro!). Ora bem, aqui vai a minha 1.ª lista de questões colocadas e as respectivas respostas:


1.º P.: Quando é que posso ir para a praia?

R.: 6 meses depois de terminar os tratamentos (mal eu sabia que ia estar 2 anos sem saber o que era sentir areia nos meus pés e tomar um banho de mar…)

2.º P.: Posso brincar com o meu cão? (na altura era o meu Pluto… desapareceu pouco depois de me ter sido diagnosticado o meu linfoma… era um verdadeiro espectáculo! Rafeiro, mas muito meiguinho… saudades? Muitas!!)

R.: Sim, desde que seja devidamente tratado e vacinado.

3.º P.: Posso lidar com crianças, brincar com elas? (os “meus sobrinhos” lindos)

R.: Nada de creches! 

4.º P.: Posso usar verniz nas unhas?

R.: Sim.

5.º P.: Posso comer fritos? (adoro um belo rissol e amo um belo douradinho de pescada Iglo!)

R.: Sim, mas muito raramente.

6.º P.: Que quantidade de água devo ingerir?

R.: 3 litros por dia! (andava sempre com o copo na boca… que sacrifício! Custava-me muito sentir o frio na boca… os meus dentes estavam tão sensíveis…)

7.º P.: Posso ingerir bebidas gasificadas?

R.: Não. (dah!!!)

8.º P.: Posso beber vinho?

R.: Só vinho tinto, 1 copo às refeições.

Durante a fase dos tratamentos de quimio, fiz terapias “complementares” para o meu bem-estar e para a minha cura! Uma delas foi frequentar consultas de Magnetoterapia em Fátima. Esta terapia consiste na arte da cura através de imãs, capazes de restabelecer e manter o equilíbrio enérgico, aumentando a minha resistência física e psicológica (que bem precisava!).

No meu caso, a terapeuta utilizava os ímãs das suas mãos no meu estômago, ou seja, o que se pretendia era estimular os canais de energia do meu corpo, sem danificar o organismo, restabelecendo-o e curando-o através de massagens na parte do meu estômago. Para além das consultas tinha de fazer uma dieta muito rigorosa que consistia só na ingestão de legumes e frutas biológicas. (Claro que não fiz nada disto, porque precisava de ter uma alimentação cuidada e variada!)

Considerada tanto curativa, quanto preventiva, a magnetoterapia não tem contra-indicação e tinha como benefícios o combate das dores, aumento da capacidade respiratória, correcção da pressão sanguínea, eliminação do cansaço, alivio à rigidez dos músculos e imunização do corpo contra determinadas doenças. (Era o ideal para mim!!!)

Cada sessão de magnetoterapia durava cerca de 40 minutos e a mim fazia-me verdadeiros milagres pois proporcionava-me um alto grau de relaxamento e bem-estar. No total, fiz cerca de 19 consultas (de Fevereiro a Setembro de 2008) a 35€ por consulta, uma vez por semana pagas na sua maioria pelos meus pais.

Como eu e os meus pais fazíamos TUDO o que estivesse ao nosso alcance para obter o meu sucesso, a minha cura (o mais rápido e eficaz possível), fiz também tratamentos espirituais em que tinha de estar 3 dias em casa em repouso absoluto sem visitas, sem telemóvel e sem acesso a televisão.

Os tratamentos espirituais tinham/têm como objectivo auxiliar no tratamento de doenças do corpo e/ou da mente. São denominados de espirituais porque são realizados - no corpo físico ou no chamado perispírito - por espíritos desencarnados, com o eventual auxílio de um médium.

Durante a realização destes tratamentos passava a maior parte do tempo a dormir, a rezar e a pensar (na maioria das vezes) no que o meu namorado andava a fazer enquanto eu estava fechada em casa. A falta de confiança dava cabo de mim… e infelizmente veio-se a provar que tinha razões para estar inquieta… Não podia confiar!

"A persistência é o caminho do êxito." Charles Chaplin

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A minha alimentação

Nesta fase, toda a minha vida foi completamente alterada e modificada. Nada do que era e fazia era ou podia ser igual. O sucesso dos tratamentos e o tempo dependiam só de mim. O meu grande e único objectivo era terminar os tratamentos no dia do meu aniversário, 11 de Julho de 2008. Estabeleci para mim própria esse objectivo e nada mais interessava!

Claro que contei sempre com a ajuda imprescindível e fundamental da minha cozinheira particular, a minha mãe. A ela competia recolher toda a informação dos alimentos muito bons que eu tinha de consumir para que os meus valores tivessem sempre em alta para que nunca deixasse um tratamento para trás. Era uma corrida contra o tempo!

Passei horas na Internet a recolher informação sobre os melhores alimentos adequados ao meu caso clínico.

Eu sabia que alimentando-me correctamente iria sentir-me melhor e mais forte, além de manter ou recuperar o meu peso, iria também tolerar melhor os tratamentos e os efeitos secundários.

A minha alimentação tinha de ser de acordo com os efeitos secundários da quimioterapia, ou seja, nas alturas que andava mais enjoada e com alteração de paladar ou odor, tinha de comer mais vezes ao dia, não ingerir líquidos durante as refeições, ficar longe da cozinha durante o preparo das refeições devido aos odores da comida, as refeições tinham de ser ingeridas em temperatura fria ou gelada ou à temperatura ambiente. Quando andava com diarreia, tinha de beber muitos, muitos líquidos, comer muita gelatina e comer caldo de arroz bem cozido com cenoura. Nesta altura não podia comer alimentos laxativos como verduras e frutas. Já quando tinha prisão de ventre, tinha de beber muitos líquidos e ingerir alimentos ricos em fibras. Quando andava com a boca inflamada (que era quase sempre) a comida tinha de ser pastosa.

Começava o dia com a minha mãe em stress a acordar-me porque tinha de comer e tomar a medicação. Sumo de fruta com beterraba (porque tinha bastante ferro) e uma torrada ou pão com manteiga. No início o sumo era super, super espesso e custava-me imenso bebe-lo, mas depois a minha mãe arranjou uma máquina própria de fazer sumos e foi a minha salvação! Almoço (feito pelo meu pai) e jantar eram essencialmente ricos em ferro: fígado (que eu adoro!), brócolos (que eu adoro!), espinafres cozidos (muitos!), alho francês (tanto!), agrião, feijão verde, lentilhas… etc. Tudo o que era rico em ferro e vitaminas e me ajudava estava lá! A Rosemary (minha mãe) não brincava em serviço e ia até ao fim do mundo para me arranjar e fazer o melhor! E resultou! Parabéns mãe!!! :D

Aprendi a gostar de cavala (peixe - que bom) e a adorar salmão. Comecei a privilegiar o peixe na minha alimentação e deixei de comer carne de porco. Adoptei a carne de vaca, frango e peru e houve uma altura que comia carne de cavalo, mas não gostei muito por considerar uma carne muito rija. Mas fazia muito bem… e eu comia, claro!

A minha alimentação era essencialmente cozidos e grelhados. Fritos raríssimos ou nenhuns e bebia essencialmente água. Nunca mais bebi refrigerantes e muito sinceramente não sinto falta.

Iogurtes de aloé vera com cereais integrais e muesli… Comia e (como) fruta! Nesta altura, a minha médica mandava-me comer chocolates e nem sempre me apetecia muito porque ficava enjoada.

"Quando você quer alguma coisa, todo o Universo conspira para que você realize o seu desejo" Paulo Coelho

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Os tratamentos e os efeitos secundários :(

Na fase inicial da minha doença fazia tratamentos de quimioterapia de 3 em 3 semanas no Hospital dos Covões em regime ambulatório. O ritual começava de madrugada, normalmente saíamos da Vieira às 7h da manhã, para chegarmos ao serviço de Hematologia às 8h para fazermos a minha inscrição que era por ordem de chegada, seguido das análises, para ter consulta com a médica para ela analisar todos os meus valores e receitar-me o tratamento a administrar. Era um dia esgotante para mim, os meus pais e a minha tia que sempre fez questão de me acompanhar! Enquanto fazia o tratamento tentava passar o tempo da melhor maneira, na conversa, a ler, a dormir ou a comer rebuçados porque o sabor da medicação na minha boca era horrível. Mau, mau era a hora de almoço com aquele cheiro horrível da comida de hospital. Bah!! Os meus tratamento de quimioterapia demoraram cerca de 4 meses.

Numa tarde, durante a semana e depois de um tratamento de quimio, o meu pai convidou-me a ir dar um passeio com ele. Ou é como quem diz… fez-me sair de casa! Uma vez que não podia passear à beira-mar (tinha sido proibida pela médica) fomos passear/andar para o pinhal. E que bem me soube… sensação de liberdade… apanhar com vento na cara, sentir e ouvir a natureza… estava VIVA! Sentia-me VIVA! Andava ao lado do meu pai e estava a falar ao telemóvel com uma amiga quando senti desequilíbrios e me senti a andar de lado. Que sensação… por muito que me esforçasse para andar direita não era capaz! Só perguntava ao meu pai “O que é isto pai? O que é que se passa comigo?”. Estava super preocupada e (confesso) que senti medo. O meu pai deu-me o braço e tentou desvalorizar a situação dizendo que era efeito dos medicamentos. Naquele momento só queria chegar ao carro e ir para casa.

Outros sintomas que tive foi a perda de apetite, penso que associada a alterações do meu paladar. Sentia um cansaço horrível, o meu corpo pesava-me toneladas.

Com os tratamentos os meus glóbulos brancos baixaram, e com isto podia desenvolver infecções com mais facilidade. Para contrariar esta situação eram-me receitadas injecções que tinha de levar na barriga. A primeira injecção fui levá-la ao posto médico da Vieira para ver como se fazia, as restantes era eu própria que mas administrava em mim sempre à mesma hora. Num dia no lado direito do umbigo, no outro dia no lado oposto para dar descanso.

Não me doía levar as injecções, os efeitos secundários é que me deixavam ko! Sentia tanta dor no meu corpo! Principalmente na parte superior da cintura. Era impossível arranjar posição para estar! Horrível!

Outro dos sintomas era o meu problema de concentração e falta de memória. Esquecia-me de tudo e não tomava atenção a nada.

O pior dos sintomas foi as muitíssimas dores nas minhas gengivas. Sentia a boca toda inflamada e passava o tempo todo a bochechar “Miconstantin”. Usado quando o organismo está enfraquecido por carências nutricionais, vitamínicas e imunológicas eu bebia “litradas” deste medicamento para me aliviar as dores que sentia. Houve uma altura que só o antibiótico me salvou!

Tive cólicas e diarreia. Houve um dia que fui trabalhar e as minhas colegas tiveram de me levar a casa porque passei algum tempo (nem sei quanto) fechada numa casa de banho do trabalho cheia de tanto calor, afrontamentos, com a careca ao léu… já nem sabia como havia de estar…

Tonturas, mau estar e no que toca ao meu período menstrual este tornou-se irregular e ausente provocando-me uma menstruação desregulada, o que me causava irritabilidade em certos momentos.

O querer de poder continuar uma vida normal, de ter o meu trabalho, a minha rotina, a minha vida fez-me ignorar todos estes sintomas e seguir em frente!

“Dos fracos não reza a história!”

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Meu MUITO Obrigada!


Resolvi fazer uma pequena interrupção na história da minha vida aqui no meu blog para agradecer a todos os que o acompanham.

Sinto-me muito honrada e emocionada com os comentários que aqui me deixam e com os comentários que me têm feito pessoalmente. Tem sido muito importante para mim e encorajador, pois não tem sido fácil reviver tudo o que passei numa fase tão difícil e dura da minha vida. Foi graças a ela que me tornei na pessoa que sou hoje. Não sou perfeita, tenho muitos defeitos mas todos os dias tento e esforço-me para ser uma pessoa melhor, mais justa. Todo o meu percurso e o meu sofrimento fez-me ver, sentir e perceber quem eu sou, o que quero e principalmente o que NÃO QUERO para mim e para a minha vida.

Peço desculpa por não comentar todos os comentários que me são feitos de uma forma individual, mas o tempo é muito curto e passa a correr.

Sinto-me muito FELIZ (como já não me sentia há muito, muito tempo!) e quem me conhece e convive comigo sabe disso! Agora que estou livre (e mais importante), me sinto livre, descansada, aliviada porque sei, sinto, tenho a certeza que tudo passou a vida tem um “sabor” diferente. E é tão bom estar bem!!!

Façam o mesmo!!

Vivam e desfrutem a vida da melhor maneira! Não deixem que coisinhas pequenas estraguem o vosso dia e que essa pequenina coisinha estrague também o dia de outra pessoa. A vida já nos prega partidas suficientes para nos deixar tristes e em baixo de forma! A vida é muito curta por isso VIVAM e SEJAM FELIZES!! (Palavras de Raúl Solnado)

“APROVEITEM A VIDA”!!! (António Feio)

“A vida não é complicada, as pessoas é que a complicam” (Andreia Ferreira) :D

O meu muito obrigada e bem hajam.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

“Viver de Amar”

Num dos dias que fiquei em casa porque não consegui ir trabalhar devido aos efeitos secundários da quimio, eu e o meu paizão sentámo-nos na sala a ver o programa da Fátima Lopes que dava durante as tardes da SIC. Não era o nosso programa preferido, mas coincidiu naquela altura estar naquele canal… e como nada acontece ao acaso, tivemos (os dois) uma pequena GRANDE revelação (uma de muitas!).

Nesse programa uma das convidadas era Otília Pires de Lima. Um ser humano extraordinário a quem foi diagnosticado uma Leucemia Mielóide Aguda (LMA). Neste programa, Otília contou todo o seu percurso (desde o diagnóstico aos tratamentos) da doença e leu algumas partes do seu livro “Viver de Amar”. Enquanto falava, os meus olhos e os do meu pai enchiam-se de lágrimas ao mesmo tempo que o nosso rosto se iluminava de fé, alegria, esperança, conforto e muita confiança. Senti que foi um sinal de Deus! Eu tinha de comprar aquele livro, eu tinha de o ler! Eu tinha de conhecer pessoalmente a sua autora!

Nesse mesmo dia tive a visita da minha estrelinha, a quem contei de imediato o que tínhamos visto naquela tarde! Falei-lhe do livro e do meu querer em tê-lo para ler. Se aquele ser humano incrível conseguiu vencer a doença, eu também conseguia!

No dia seguinte, recebi um presente da minha estrelinha. O livro “Viver de Amar” com uma dedicatória: “Minha estrelinha, eu nunca quis acreditar que tinhas um tumor… para mim isso era (e continua a ser) bastante irreal. Isto porque tu, realmente, não mereces :( mas como tu própria dizes “isto não acontece a quem merece”… se assim fosse, quase toda a gente tinha cancro, que horror!! Continua sempre com essa força! És uma mulher incrível, forte e linda!! Encara a “doença” sempre com um sorriso nos lábios, apesar de, muitas vezes, te apetecer tudo menos sorrir e lembra-te sempre que não estás sozinha. Este livro é só um dos muitos exemplos de força, tu sabes que tudo depende de ti. Coragem! Encara isto como mais uma lição de vida que te vai tornar uma pessoa ainda melhor. Um beijo da amiga que te adora e que vai estar sempre contigo (mesmo que tu não queiras)”

Li o livro em pouquíssimos dias! Eu e o meu pai íamos para a Praia do Pedrógão ler dentro do carro (quem nos visse dizia que éramos namorados!). O meu pai tentava ler o jornal enquanto eu entusiasmada lia em voz alta partes do livro. Adorei, amei! Nesta altura, não imaginava o que o futuro me reservava, mas sem dúvida que era a preparação para o que aí vinha. Este livro passava a ser a minha bíblia! Uma história real contada na 1.ª pessoa que me fez acreditar e agarrar-me ainda mais à vida e às pessoas que mais amava!

Como este livro foi, é e será sempre tão importante para mim QUERO que ele seja também um exemplo de força, coragem e determinação para todas as pessoas que precisem!

“Esta ausência de medo transmite-me calma, tranquilidade, paz e segurança. É absolutamente fascinante, viver de maneira tão intensa quando tanto nos está vedado. Provavelmente, será esta a única forma de aprender o valor e a beleza da vida que não soube viver. Se nestes poucos meses sofri bastante, vivi bem mais. Foi-me dado o privilégio de entrar noutra dimensão, ganhar novos sentidos, passar a ver o mundo e as pessoas sob outras cores e a importância das coisas redimensionar-se com resultados incríveis.” – Viver de Amar – Otília Pires de Lima

domingo, 29 de agosto de 2010

Os Outros…

Desde o início de toda esta minha jornada, nunca escondi o que se estava a passar comigo e sempre falei abertamente sobre tudo. Sei e senti que foi muito difícil também para as pessoas que me eram mais queridas e próximas ter uma reacção, uma atitude, uma palavra de conforto perante todas as fases que já tinha passado (de diagnóstico, de espera, da confirmação, dos exames, dos tratamentos…) Não foi nada fácil, eu reconheço!

A maioria das pessoas falava-me de casos semelhantes. Toda a gente tinha um irmão, um primo, um tio, um vizinho, um amigo, um conhecido… alguém a quem já tinha sido diagnosticado um cancro e tinham/estavam a supera-lo bem! Casos reais e positivos que me deixavam bem mais contente e (principalmente) tranquila e confiante.

Lembro-me que no início fui “bombardeada” com todo o tipo de exemplos e casos (graças a Deus!) de sucesso, mas depois… depois cheguei a uma altura que já não queria saber… Que ninguém me dissesse mais nada que eu já não aguentava, já não suportava. Estava saturada do cancro e aborrecia-me que esse fosse o tema principal da minha vida! Também percebi que os exemplos que eram mais próximos se tornavam quase como uma “regra” e ditavam o meu destino!! BASTA!! Cada caso era um caso e eu tinha de ser diferente! Tinha de ser porque eu QUERIA!! E querer é poder!

Lembro-me que quando fui colocar o meu cateter o meu pai já sabia todos os trâmites por que ia passar através de um amigo que infelizmente tinha passado por uma situação que para o meu pai era igual, mas para mim foi semelhante (não igual!). Tremi tanto, mas tanto, tanto com medo. Eu, no caso da doença sempre quis saber o essencial e só o essencial e quando já estava a saber demais STOP! Não queria porque o meu sistema nervoso não aguentava (ainda hoje não aguenta) e não me interessava. Que seja o que Deus quiser e eu acredito (sempre acreditei) em milagres!

Proibi de me falarem em quem quer que fosse! Passei a rezar por todas essas pessoas que tal como eu mudaram a sua vida drasticamente com o diagnostico de uma doença muito grave. Cada caso era um caso! E a todos os meus companheiros de luta que se cruzaram no meu caminho e eu no deles, e com quem tive oportunidade de conviver, transmiti sempre força, fé, esperança, ânimo, alegria de viver e fiz de tudo o que estava ao meu alcance para os apoiar e ajudar. Afinal, se um estivesse mal, os outros também ficariam. Por isso ninguém podia desanimar! Tínhamos de ser mais fortes que o “bicho” e dependia de nós e só de nós vencê-lo!

Por tudo isto e muito mais, vos digo: Cada caso é um caso! Cada situação é uma situação! Há casos de pessoas com diagnósticos muito graves que conseguiram verdadeiros milagres, há casos de pessoas com diagnósticos menos graves que já não estão aqui entre nós, há casos de pessoas que por um motivo ou por outro desistiram de lutar e outros ainda que lutaram destemidamente e partiram como verdadeiros heróis e verdadeiros exemplos de coragem!

Aconteça o que acontecer EU NUNCA desisti e NUNCA vou desistir de mim, dos outros (em quem eu realmente acredito e amo), do amor, da vida, da fé, da esperança, do querer, do ter! NUNCA DESISTAM!!

“Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer”. Mahatma Gandhi

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Verdadeiros gestos


Andava que nem podia! Tantas alterações que surgiram de repente na minha vida sem ninguém me perguntar nada! Se eu queria, se eu estava preparada! O meu trabalho, a minha vida, a minha casa, … tudo ficou para trás.

Tantas mudanças sem ter tempo para as programar com tempo e mais importante, interiorizá-las, aceitá-las, tentar percebe-las. Estava a passar um tsunami na minha vida e eu não sabia o que fazer. Sentia-me triste, mas não queria e não podia demonstrá-lo. Eu ia conseguir passar por tudo sem deixar mazelas a mim, aos meus pais e às pessoas que me eram mais próximas.

O meu namoro ia de mal a pior… O trabalho estava a “meio gás”… A minha casa abandonada… A alimentação e a forma de vida totalmente alteradas… Até o sono! As viagens, as consultas, os tratamentos, os exames, os efeitos secundários deixavam-me de rastos, triste, nervosa e angustiada… A tristeza, angústia e revolta dos meus pais… A reacção da minha restante família, dos amigos, colegas e conhecidos… O meu novo “eu”… Tanta coisa em tão pouco tempo.

Um grupo de amigos reuniu-se e organizaram-me um jantar de convívio no dia 22 de Março, Sábado. Fiquei imensamente feliz e contente com tamanho gesto e diverti-me imenso. Recebi um peluche, uma tartaruga a quem baptizei de “Felicidade” (era tudo o que eu mais queria era ser feliz!). Viva os anos que viver nunca me irei esquecer desse jantar. Agradeço de coração à minha estrelinha que o organizou e agradeço a todos os que fizeram questão de estarem presentes. O meu muito obrigada! :D

Lembro-me que estava muito frio e muito vento e o meu pai passou-se com a ideia de eu sair de casa (preocupação de pai!). Nesta altura era impensável ficar doente com gripe, ganhar febre ou qualquer coisa parecida! Acredito que a minha mãe concordasse com o meu pai mas ela sabia o quanto era importante para mim ir e estar presente neste jantar. Sabia os riscos e as consequências que podia correr, mas arrisquei e fui! Levei tanta (mas tanta) roupa vestida que tive imenso calor durante o jantar. O pior é que como a parte de cima era um vestido não podia tirar qualquer peça de roupa sem ter de me despir toda. Lol

Estávamos na parte das sobremesas quando vi a minha mãe a entrar no restaurante. Não aguentou e teve de me ir ver, confirmar como eu estava…

“Amar é sentir na felicidade do outro a própria felicidade”. Gottfried Wilhelm von Leibnitz

terça-feira, 24 de agosto de 2010

I am Beautiful...














"Every day is so wonderful
And suddenly, it's hard to breathe
Now and then, I get insecure
From all the pain, I'm so ashamed

I am beautiful no matter what they say
Words can't bring me down
I am beautiful in every single way
Yes, words can't bring me down
So don't you bring me down today

To all your friends, you're delirious
So consumed in all your doom
Trying hard to fill the emptiness
The pieces gone, left the puzzle undone
Is that the way it is?" (Beautiful - Christina Aguilera)



Tradução especial para a mãe:

"Todos os dias são maravilhosos

E de repente, fica difícil de respirar

De vez em quando, eu sinto-me insegura

Com toda a dor, eu sinto-me envergonhada

 

Eu sou bonita não importa o que dizem

Palavras não vão me fazer cair

Eu sou bonita de todas as maneiras

Sim, palavras não vão me fazer cair

Então não me façam cair hoje


Para todos os teus amigos, tu és delirante

Tão consumida pelo teu destino

Tentando arduamente cobrir o vazio

As peças foram-se, deixaram o puzzle inacabado

É assim que tem que ser?"

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O inevitável!

Andava toda feliz e contente porque o cabelo permanecia na minha cabeça. Hihihihihihi Provavelmente já não me iria cair. Caía a todas as pessoas que faziam tratamento de quimio, mas eu… eu era diferente! A mim o cabelo não ia cair. Lol

11 de Março de 2008 acordei e a minha almofada metia MEDO!! CAREDO tanto cabelo. O meu cabelo estava completamento solto da raiz e a primeira coisa que fiz foi sacudir a almofada e tomar um banho URGENTE!! Era inevitável! Tinha de cortar mais uma vez o meu cabelo desta vez mais curtinho! Ver cabelo assim a cair é que nem pensar!

Era cabelo na cama, era cabelo na roupa, era cabelo no prato da comida, … AHHHHHHHH!!!!

15 de Março, já não aguentava ver o meu cabelo a “soltar-se” e pela primeira vez decidi por um dos meus lenços. Lembro-me que os meus tios de Lisboa estavam cá e foram almoçar lá casa com a minha avó e senti-me bem.

Os lenços passariam a ser a minha imagem de marca! Para cada toilette, usava um lenço… Era mesmo vaidosa e gostava. Obriguei-me a gostar de mim a ser diferente!

Recebi tantos lenços e tão lindos. O meu muito obrigada!

“Temos de nos tornar na mudança que queremos ver” Mahatma Gandhi

domingo, 22 de agosto de 2010

A pesquisa...

Iniciados os primeiros tratamentos, quis saber tudo sobre a minha doença. A médica já me tinha explicado, mas para mim falou chinês. Graças a Deus existe a internet!

1.ª questão: O que é um Linfoma?

O linfoma é uma doença dos linfócitos (leucócito mononuclear presente no sangue, nos tecidos linfóides e na medula e que desempenha importantes funções imunitárias). Assemelha-se a um cancro na medida em que a regulação dos linfócitos afectados dividem-se de forma anómala e demasiado rápida e/ou podem não morrer quando deviam. Frequentemente, os linfócitos anómalos concentram-se nos gânglios linfáticos e estes aumentam de volume podendo agrupar-se noutras zonas do corpo para além dos gânglios linfáticos, como no baço, medula óssea ou outros órgãos do corpo. No meu caso foi no estômago. De facto, os linfomas podem formar-se em quase toda a parte. Pode também dar-se o caso de afectarem mais do que uma parte do organismo simultaneamente.

Os sintomas exactos dependem do local onde estes gânglios aumentados se localizam. No meu caso: dores no estomago, anemia, cansaço, perda de cabelo,... Além disso, os linfócitos anómalos não conseguem cumprir adequadamente as suas funções de defesa, no sistema imunitário e se não forem tratadas, as pessoas que sofrem de linfoma apresentam uma maior tendência a contrair infecções. Ora aí está o que me acontecia!

Os linfomas podem dividir-se em dois grupos principais:

·         Linfoma não-Hodgkin (ou LNH)

·         Linfoma de Hodgkin (também conhecido como doença de Hodgkin)

2.ª questão: Porque a mim e como?

O porquê sempre foi a minha principal preocupação. Terei sido eu a principal responsável e culpada por esta doença me ter aparecido? Foi a mania das dietas e sempre a busca de um corpo perfeito? O medo de me tornar gorda e feia? De ninguém se interessar ou gostar de mim?

O que os sites dizem é que o linfoma não-Hodgkin pode surgir em qualquer idade. No entanto, as pessoas mais idosas, são as mais afectadas e embora esta doença se manifeste em ambos os sexos, é mais prevalente em homens do que em mulheres.

É importante lembrar que nada que a pessoa com linfoma não-Hodgkin tenha feito originou a doença”. Esta frase “salvou-me” e deu-me forças para lutar. Afinal não era eu a responsável por nada (apesar de me fazerem crer e acreditar que sim!). Não fiz nada de extraordinário para ficar doente e depois, quando olhava ao meu redor via pessoas que tinham/têm uma vida que não a respeitam. Não se respeitam a elas próprias, nem o corpo que têm. Divertir não é sinónimo de beber até cair para o lado e perder a noção de tudo. Emagrecer não é deixar de comer! É comer várias vezes ao dia, beber àgua e ter uma alimentação saudável (rica em legumes e frutas). Descansar é muito importante e não perdemos os nossos amigos se não sairmos todas as noites. Chamar a atenção não é cair no ridículo.

“A felicidade não está em viver, mas em saber viver. Não vive mais o que mais vive, mas o que melhor vive”. Mahatma Gandhi

sábado, 21 de agosto de 2010

A minha primeira intervenção cirúrgica


1 de Março de 2008, Sábado, recebi a visita das minhas amigas que estudaram comigo no ISLA e dos seus respectivos maridos/namorados e filha. Depois de saberem da novidade por mim, combinaram e fizeram-me todos uma visita que muito me agradou e comoveu porque não estava nada à espera. Foi muito giro e muito bom voltar a vê-los a todos, em especial à minha “sobrinha” emprestada que fiz questão de (ir contra todas a indicações da médica) e pegá-la ao colo. Há sentimento e gesto melhor que ter um bebé nos nossos braços?!? Não!! Então aproveitei todo o tempo para andar com a minha “sobrinha” ao colo e matar todas as saudades.

De uma turma tão grande sobrou um grupo de resistentes que se mantêm unidos e sempre que podem encontram-se para estreitar e fortalecer os laços de amizade que nos unem e sempre nos uniram. Espero que se mantenha assim, porque “o longe faz-se perto” e “quando se quer, consegue-se”. Obrigada meus queridos e minhas queridas por estarem sempre comigo e respeitarem-me sempre.

Desde o primeiro tratamento de quimio até aqui as coisas não foram fáceis, mas também não foram impossíveis. Dores no corpo, fraqueza, cansaço, indisposição, vertigens e desequilíbrios foram alguns dos meus primeiros sintomas. O cabelo ainda se mantinha curto (e na minha cabeça. Lol).

Um sintoma extra fazia-me andar mais stressada e preocupada, mas resistente… as dores que tinha no meu braço… Depois de conferenciar com os meus pais, chegámos à conclusão porque nós em outras vidas fomos médicos) que podia ser de ter agarrado na minha linda “sobrinha” ao colo e por muito que tentasse ser forte, tinha que ligar à minha médica… eu não queria nada… mesmo nada… mas… liguei e… o resultado foi uma deslocação ao hospital para uma pequena cirurgia. A minha primeira cirurgia e a colocação de um cateter central que me iria permitir receber os tratamentos de quimioterapia através de acesso ao sistema venoso de uma forma mais fácil e praticamente indolor (abençoada “sobrinha” :D).

Tive que estar no hospital no início da tarde, para ser submetida a uma pequena intervenção cirúrgica que me fez tremer (a mim e ao meu paizão que me esperava cá fora) e ter algum receio pelo aparato da sala, das luzes, das máquinas, dos apitos… de tudo. Médico e enfermeiras foram uns queridos e muito meiguinhos apesar de me deixarem o braço numa lástima por não me encontrarem veias... Passou!! Posso dizer que apesar de estar a dormir durante a cirurgia, senti tudo o que me fizeram, uiiiiiiiii. Mas o pior… o pior foi o depois. As dores e o não conseguir arranjar uma posição que as aliviasse e me deixasse dormir. Estava “doidona”, maluca com dores e foi neste momento que descarreguei todo o meu “mau feitio” com os meus pais, pois tá claro! Quem mais?!? Perdoem-me, mas só me apetecia bater, morder, descarregar toda minha fúria, tristeza e dor. (ATT: não fiz mal nenhum a ninguém! Não sou violenta.). Aguentei-me firme! A minha mãe desesperada, pediu a uma amiga minha que fosse dormir comigo lá a casa e me levasse uma almofada que me permitisse dormir sentada.

"Pior que a dor do corpo, é a dor da alma."

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O primeiro passo!

Diz-se que quando uma mulher pretende mudar algo na sua vida, muda radicalmente de corte de cabelo, de visual. Este é o primeiro passo e também foi assim comigo!

23 de Fevereiro de 2008, sábado, decidi ir ao cabeleireiro para me fazerem o primeiro corte do meu cabelo como preparação para os tratamentos de quimioterapia. Estava um pouco receosa, mas até gostei do resultado final. Para começar não estava nada mal. Era tudo uma questão de adaptação.

Dia 26 de Fevereiro, foi a minha primeira consulta no Hospital dos Covões e fui com os meus pais. Nesta primeira viagem, o meu vizinho fez questão de nos acompanhar e levou o carro (graças a Deus!). Conforme indicação que tinha do hospital de Leiria, dirigi-me ao serviço de hematologia onde tive a minha primeira consulta com a descrição da minha doença: Linfoma Não Hodkings, Estadio III – B, ou seja, o estádio refere-se ao envolvimento de duas ou mais regiões linfáticas, no tórax e no abdómen e a letra 'A' ou 'B' representa a presença, ou não, de três sintomas específicos:

- Febre recorrente, inexplicada (com temperaturas acima de 38oC)

- Suores nocturnos

- Perda não intencional de peso superior a 10% nos últimos 6 meses

A letra 'A' significa que nenhum destes sintomas está presente, ao passo que a letra 'B' indica a presença de pelo menos um destes sintomas.

Nesta primeira consulta ainda realizei alguns exames: um electrocardiograma, um ecocardiograma e um raio-x. Depois de efectuados todos os exames, deram-me anestesia geral para realizar um exame à medula óssea (punção lombar) e ainda realizei o meu primeiro tratamento de quimioterapia. Estava tão anestesiada que não me lembro de nada (o que até foi bom!). Só me lembro de estar deitada no sofá da sala dos meus pais com a minha mãe a dar-me de comer à boca (não sei o k estava a comer… sentia-me tão atordoada…). No outro dia quando acordei tive de tomar medicação e lembro-me que foi a primeira vez que vomitei. Os efeitos secundários da quimio já estavam a fazer efeito e fiquei contente! Fiquei contente porque o tratamento já estava a fazer efeito. Já estava a matar o “bicho”!

29 de Fevereiro de 2008, tive a minha primeira aparição publica num jantar de aniversário do meu ex-namorado na praia da Vieira. Todos os convidados estavam admirados com o meu novo visual e eu não sabia o que dizer e o que fazer (como sempre!). Tinha consciência que algumas pessoas já sabiam, mas outras não…

Não sabia o que havia de fazer… que atitude tomar perante mim e perante os outros.

"O tempo é o melhor autor. Sempre encontra um final perfeito." Charles Chaplin

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Linfoma não-Hodgkin. A confirmação!

18 de Fevereiro de 2008, 11h 00 da manhã, estava a trabalhar quando recebi o tão desejado e esperado (ou não) telefonema do hospital com o resultado da biopsia.

O meu coração estava a uma velocidade de mil à hora, o meu estômago apertava, estava toda a tremer e a tentar concentrar-me para poder ouvir o resultado. O que eu mais receava CONFIRMAVA-SE! Eu tinha um linfoma!

A médica teve o cuidado de me dizer que esta doença era tratável e curável com quimioterapia (que bom!...).

Marcaram-me de imediato um PET na clínica Privada da Boavista no Porto, uma tomografia por emissão de positrões que permite detectar o tumor cancerígeno e determinar se o cancro estava espalhado pelo corpo e quanto (metástases) e marcaram-me para ir ao hospital fazer análises.

Ouvia a voz da médica e as lágrimas caíam-me sem controlo. Estava num beco sem saída!

A pergunta que toda a gente faz nesta altura eu também fiz! PORQUÊ EU?!? PORQUÊ A MIM?!? Isto só acontece aos outros, não a mim! Não pode ser! Não era justo!

Quando desligaram, divulguei a notícia à minha coordenadora e aos meus colegas de trabalho que se encontravam perto de mim. A minha coordenadora abraçou-me e chorámos as duas. Foi muito bom e reconfortante sentir aquele abraço naquele momento em que o meu mundo estava a desabar. A minha estrelinha também lá estava e foi a partir deste momento que a nossa amizade cresceu. Em todos os momentos bons e menos bons ela estava sempre lá com uma palavra de conforto, de ânimo, de esperança, de amizade...

Agora que os dados da minha vida estavam lançados, que sabia o que realmente tinha era altura de saber qual o próximo passo, o que havia a fazer para me salvar porque eu queria (e quero) VIVER! Não vale de nada baixar os braços, chorar, gritar, espernear, ter pena de mim própria! Ou eu ganhava forças e fazia-o ou morria! Tão simples quanto isto! Não havia escolha! O mal já estava dentro de mim! Era a luta pela minha vida, pela minha saúde. Nem pensar em ter uma depressão, cair num fosso onde corria o risco de nunca mais de lá sair! Desistir! Não podia! O que era de mim? Das pessoas que mais amo? Se tivesse de partir que fosse a lutar, nunca a desistir, nunca a baixar os braços, NUNCA!

Não sou perfeita e por não o ser tentei sempre ver o lado positivo das coisas, o lado colorido, tinha de haver alguma solução.

O próximo passo era ganhar coragem e cortar o meu longo e bonito cabelo…

“Por mais longa que seja a caminhada o mais importante é dar o primeiro passo” Vínicius de Moraes

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

18 dias de agonia…

Cheguei a casa dos meus pais e lá estavam eles à minha espera com cara de pânico e terror! Lembro-me de o meu pai me esperar à porta de casa e começar logo a fazer-me perguntas… “Calma!” Respondi-lhe eu com um sorriso! Entrei, levei os sacos para o quarto, respirei fundo e dirigi-me à sala onde lhes contei tudo o que se tinha passado.
A minha mãe sempre tentou transmitir-me paz e calma, mas o meu pai… o meu pai por muito que tentasse, que se esforçasse não conseguia… Sempre muito nervoso, sempre muito bem informado sobre todas as doenças, sempre muito preocupado comigo e com o meu irmão, sempre muito atento, teve sempre uma cara muito carregada. Não consigo imaginar o sofrimento deles... 

A minha mãe nessa noite de sexta-feira cozeu-me maça e tirou-me de casa para “apanhar ar”. Fomos até a uma esplanada na Praia da Vieira em que me sentia uma perfeita e grande anormal... Não sabia o que dizer e o que fazer e sentia que o mesmo acontecia com as pessoas que lá se encontravam. Algumas já sabiam, outras não… mas sentia que olhavam para mim com pena. Isso incomodava-me, mas eu própria sentia pena de mim. Pena por tudo me ter acontecido assim, desta maneira e por me considerar a principal responsável. Por ter cometido tantos erros, por ter confiado, acreditado, amado, sacrificado, ... Deixei de pensar em mim e culpava-me por tudo…

Passaram-se 18 dias com a festa do Carnaval pelo meio! Mascarei-me e vesti-me de palhaça, saí de casa com o objectivo de contrariar a tristeza e de esquecer tudo o que se estava a passar comigo. A vontade não era nenhuma mas fui para os bares da Praia da Vieira… Tentei divertir-me, tentei misturar-me com as outras pessoas, tentei não pensar em nada, mas foi totalmente impossível. Só me apetecia chorar, gritar, fugir! De nada adiantava... Para onde fosse, o que fizesse, na minha cabeça só ouvia uma palavra: CANCRO! CANCRO! CANCRO!

ODEIO o Carnaval! Traz-me más recordações, maus sentimentos! Alguém a quem eu disse Amo-te, alguém a quem chamei de namorado, alguém a quem eu entreguei o meu coração, alguém em quem eu confiei, alguém que me prometeu e jurou não me fazer sofrer… Esse alguém, nesta mesma altura, enganou-me, mentiu-me, gozou-me, magoou-me e fez-me sofrer muito. 

O que desejaria uma mulher de 30 anos com a possibilidade de lhe ser diagnosticado um cancro numa altura destas?


“Não exijas dos outros qualidades que ainda não possuem. A árvore nascente aguarda-te a bondade e a tolerância para que te possa ofertar os próprios frutos em tempo certo” Chico Xavier

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O diagnóstico…


No final do mês de Janeiro de 2008, fui a uma consulta de gastrenterologia, onde o primeiro diagnóstico que me foi dado foram… gases!! Comprimidos para o estômago e pastilhas para os intestinos, foi o que andei a tomar durante 2 dias até ir novamente ao consultório realizar uma endoscopia. Lembro-me perfeitamente de ser uma sexta-feira, de sair mais cedo do trabalho cheia de medo porque disseram-me horrores desse exame. Era a minha primeira vez!! E lá fui eu! Entrei na sala, colocaram-me anestesia local (na garganta), deitei-me e colocaram-me o tubo (que pensava ser bem mais fino… santa ignorância!). Estava a correr tudo normalmente, o médico falava calmamente comigo para que ficasse cada vez mais relaxada e ao mesmo tempo falava com a sua assistente (que por sinal era a sua esposa) até que… fez-se um silêncio terrível e a atitude do médico mudou drasticamente. “Oh… Oh… O que é que se passa aqui “ pensava eu. Sem resposta… O médico saiu da sala stressado a pedir o telefone para ligar para o hospital. Enquanto estava ao telefone a tentar fazer a ligação, pediu-me para ir a correr aos correios levar um frasco para enviar para Coimbra para ser feita uma biopsia. 

Eu… nada de mim!! Hello!?! Andreia?!?

Foi então que ouvi o nome de “linfoma” e aí fiquei toda atarantada sem saber o que isso significava. Com o meu telemóvel avariado ainda consegui fazer algumas chamadas e a pessoa do outro lado informou-me o que era o dito “linfoma”. Nos correios, enquanto aguardava, via tudo à roda, não estava em mim. Não era possível! Não podia ser! Voltei ao consultório, o médico entregou-me uma carta e mandou-me imediatamente para o hospital para falar com uma médica cirurgiã. Aí fui eu. Cheguei ao hospital a médica já estava à minha espera. Levou-me para uma sala, leu a carta e perguntou-me se eu tinha visto o relatório da endoscopia. Disse que “não” (tão estúpida! É que nem me lembrei de tal coisa!) e perguntei-lhe cheia de mim: “mas afinal, o que é que eu tenho?!?”. Resposta: “então, a Andreia tem um tumor!”

Naquele instante o hospital desabou em cima de mim! A partir desse preciso momento… eu já não era eu! Não me sentia… Não era gente!

Tenho o quê?!? Isso não pode ser aquilo que eu estou a pensar!! Não! Não! Não!

Quando saí do hospital lembro-me de ver a minha mãe e (na altura) a namorada do meu irmão… Vi Deus naquele momento! Como é que elas estavam ali? Agarrei-me com todas as minhas forças à minha mãe a chorar. Também a chorar, a minha mãe só me dizia para ter calma, que não ia ser nada e que eles estavam sempre comigo, para tudo! Eu só chorava! Não conseguia ouvir nada, nem ninguém! Só a minha própria voz a gritar dentro de mim a dizer NÃO! NÃO! NÃO! 

O depois… fazer as malas, ir para casa dos meus pais, aguardar o resultado da biopsia e rezar, acreditar para que tudo não fosse um grande engano.

"A força não provém de uma capacidade física e sim de uma vontade indomável." Mahatma Gandhi.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Como tudo começou...


com o meu divórcio. Com a dor, a tristeza, a desilusão, a vergonha, o medo do futuro, a angústia de não saber o que fazer e como fazer, o desespero, a incerteza, a falta de apetite, o cansaço, o desalento, a fraqueza, a mágoa...

Para não perder o que restava de mim, da minha vida, dos meus sonhos tive de arranjar outro trabalho que me desse mais algum dinheiro para poder suportar todas as despesas que ficaram a meu cargo. Quando fiquei com a minha casa fiquei com a dívida e com todos os encargos inerentes a ela. Pensar que quando a vi, a escolhi, assinei um contrato a pensar que não iria suportar tudo sozinha... mas assim foi!! Não tinha dinheiro para nada e trabalhava que nem uma doida! Sempre a correr de um lado para o outro, sempre a fazer contas...

Foi neste período que cada vez me sentia mais e mais em baixo, mais cansada, com dores no corpo, o cabelo (o meu longo cabelo) a cair-me cada vez mais, a falta de apetite, desmaios, dores no estomago... mas quem é que nunca andou mal do estômago quando o sistema nervoso anda numa "roda viva"?!? São as chamadas úlceras nervosas... e o cansaço...

Aguentei, aguentei, aguentei e aguentei até conseguir ter um dinheirinho extra e finalmente ir a um médico particular ver o que se passava com o meu estômago. Aqui deixo uma mensagem a todos os que por mais que uma vez me quiseram dar/emprestar dinheiro para ir ao médico e eu neguei graças ao meu orgulho e teimosia. No entanto, houve alguém que ganhou. O meu muito obrigada!

"O meu corpo é o meu templo"! Ele dá todos os sinais é preciso é estar atenta!

domingo, 8 de agosto de 2010

Bem haja!


Bem haja por estar a ler o meu blogue.
A ideia surgiu à 2 anos por parte de uma grande amiga. A Diana (a minha pérola) tinha um blogue e várias vezes me dizia: "Faz um blogue para ti! É tão bom escrever o que nos vai na alma.". Eu respondia: "Eu prefiro ler o teu e fazer os meus comentários. Revejo-me totalmente em tudo o que escreves e não tenho meios nem tempo para isso! Escreve minha pérola, escreve!" O blogue "na minha concha" ainda existe mas hà cerca de  um ano que não é actualizado pela partida da sua criadora, que saudades da minha pérola...
Agora amadureci a ideia e resolvi criar o meu blogue!
Pretendo "abrir a cabeça" a quem não sabe como se vive sem estômago. Como se vive depois do diagnóstico, tratamento e cura de um cancro.
A quem me diz "se fosse comigo, não aguentava" eu respondo que "o ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar a novas situações e a força - que pensa não ter - vem de qualquer jeito, meio ou feitio. No meu caso até "reencarnado" em pessoas, sonhos e emoções.
Sempre acreditei que não era a minha hora, que Deus tinha de me dar uma oportunidade para viver e ser feliz. Vivi esse período da minha vida como se "não tivesse em mim" e sempre com muita fé. Primeiro em Deus e Nossa Senhora de Fátima, depois em mim e no amor da minha família e de amigos.
Esta será a minha próxima etapa, viver bem e ser feliz. Olhar o mundo com outros olhos, mas sempre, sempre acreditando.